Demanda por consignado segue firme ,EMPRÉSTIMOS
Metade dos aposentados recorreu ao financiamento com desconto na folha de benefícios
O histórico de altas taxas de juros para o consumidor final, somado a uma população numerosa e sem acesso integral ao sistema financeiro, revelou-se em terreno fértil para o crédito consignado. Essa modalidade de empréstimo alcançou, em fevereiro, um volume total de R$ 111,61 bilhões, avanço de 37,8% em relação ao mesmo mês de 2009, de acordo com dados do Banco Central. Tal montante que faz que os consignados concentrem 60,6% do crédito pessoal. "O consignado encontrou um ambiente favorável para o seu desenvolvimento", diz Renato Oliva, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC).
Criado na década de 90, o crédito consignado era, inicialmente, restrito a funcionários públicos. Em 2003, passou a ser oferecido também para aposentados e trabalhadores de empresas privadas. Desde então, o volume de empréstimos tem crescido a um ritmo de, no mínimo, 20% ao ano.
Entre os três públicos - beneficiários do INSS, funcionários públicos e do setor privado -, a maior adesão é entre os aposentados. "Havia uma demanda reprimida por parte desse público", afirma Oliva. Tanto, que pelo menos 50% dos aposentados - de uma base de 22 milhões de beneficiários - fez pelo menos um empréstimo consignado, segundo levantamento da ABBC. Dessa base, dois terços não recebem os benefícios via banco, e sim, por meio de cartões. "O consignado também tem o mérito de colocar mais de 15 milhões de aposentados, sem conta corrente, no sistema financeiro formal", destaca.
Os empréstimos consignados têm, como característica, o desconto das parcelas diretamente da folha de pagamento. Isso faz com que o risco de inadimplência seja menor, o que permite a cobrança de juros mais baixos em relação às demais taxas praticadas no mercado, nas linhas de empréstimo tradicionais. Hoje, em média, as taxas do consignado são 27,3% ao ano, enquanto crédito pessoal e cheque especial registram, respectivamente, 43,8% e 159,5%.
Também oferece prazos mais longos de financiamento, permitindo que o empréstimo seja parcelado em até 60 meses, com prestações iguais e prefixadas. A aprovação, por sua vez, é descomplicada. Mesmo que o interessado tenha nome em listas restritivas, como SPC e Serasa, não encontrará impedimentos para contrair o empréstimo. A única limitação é o comprometimento da renda. As parcelas devidas não podem ultrapassar 30% dos vencimentos líquidos dos trabalhadores.
Valdir Simão, presidente do INSS, acredita que esse conjunto de facilidades explica o número crescente de beneficiários que tomam esse tipo de empréstimo. "É uma modalidade muito divulgada, que os beneficiários têm acesso direto."
Oliva, da ABBC, destaca o papel que esses empréstimos têm desempenhado na distribuição de renda. Em janeiro, por exemplo, foram contabilizadas 1,14 milhão de operações feitas por beneficiários do INSS. Desses, 63% possuíam renda até 1 salário mínimo. Outros 24% contavam com renda de 1 a 3 salários mínimos, e 13%, acima desse valor, , de acordo com a ABBC. "O consignado veio em excelente hora, pois tem sido uma das principais forças motrizes para o crescimento do país", afirma.
O recurso do crédito tem sido usado de forma economicamente saudável. Segundo a ABBC, 55% das pessoas que pegaram o empréstimo pela primeira vez utilizaram os recursos para saneamento de dívidas. Logo depois do saneamento financeiro, a lista de prioridades dos tomadores do consignado traz a reforma do imóvel ou compra de eletrodoméstico. "Trocaram o comprometimento maior de renda por uma parcela menor", analisa Oliva.
Outro fator de sucesso do consignado, na opinião de Oliva, está apoiado no conceito de concorrência. No país, há mais de 70 bancos fazendo esse tipo de operação. "Isso permitiu manter as melhores taxas e melhoria no serviço", diz. "Essa concorrência, que foi fundamental para o desenvolvimento do produto e para o acesso da população em território nacional, deve ser preservada", afirma.
A ABBC calcula um crescimento vigoroso para essa modalidade de crédito em 2010. Algo em torno de 20% a 30% em relação ao ano anterior. "À medida que o País vai se consolidando, traz perspectiva de horizonte mais clara, com pessoas mais dispostas a tomar crédito."
Observa-se uma baixa adesão dos funcionários do setor privado. Em fevereiro, representaram só 13,59% do volume total do consignado. "Talvez por desconhecimento do público ou de empresas, que ainda não se manifestaram em aderir", diz Ademiro Vian, analista da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). Por isso, Vian acredita que esse segmento, nos próximos anos, puxará a expansão dos consignados.
Fonte: Matéria lida no-Valor Econômico - 25/03/2010
Soraia Duarte, para o Valor, de São Paulo