Inadimplência também atinge as carteiras de crédito consignado
O consignado, criado em 2003, ajudou a baixar as taxas de juros e também a inadimplência das carteiras de crédito para pessoas físicas. A grande vantagem está no desconto das parcelas direto em folha de pagamento, que reduz o nível de atrasos. Por outro lado, essa consignação de parte do salário elevou a preocupação com o endividamento das famílias.
Um exemplo dessa atenção redobrada está na prefeitura de Presidente Prudente, interior de São Paulo. "O consignado é um bom produto, mas exige disciplina. Às vezes o funcionário até sai do plano de assistência médica do município, para aumentar a margem consignável e tomar mais dinheiro", afirma Alberico Bezerra Lima, secretário de administração da prefeitura da cidade.
Para evitar o assédio dos representantes dos bancos aos seus funcionários, o município limitou em quatro o número de instituições que podem oferecer consignado aos servidores, conta o secretário. Antes os pastinhas, como são chamadas as pessoas que oferecem o crédito, tinham até mesas cedidas pela prefeitura para se instalar dentro das dependências dos organismos públicos. Alberico acabou com isso tudo: "Não é preciso esfregar o dinheiro no rosto da pessoa. A gente cobiça o que não tem".
Para oferecer consignado, os bancos fecham contratos com os órgãos públicos, chamados de convênios. Cada convênio é acessado por meio de um sistema eletrônico, que informa quando do limite de 30% do salário do servidor está disponível para novos empréstimos. Esse mesmo sistema, ligado à folha de pagamento, direciona os recursos, a casa mês, para o banco, quitando a parcela de forma automática.
Os limites impostos pela prefeitura de Prudente também chegaram ao número de operações. Segundo determinação do secretário, quando 40% dos funcionários têm consignado, as novas liberações são suspensas.
"Servidor endividado é um problema. O produto é bom, porque o juro é menor. Mas ele faz o consignado e faz o outro crédito também. Aí, quando chega o pagamento, não tem nada e ele se torna um funcionário improdutivo", relata o Alberico.
Estima-se que algumas prefeituras tenham 70% dos funcionários com parte da renda comprometida com as parcelas. Mas o aumento do endividamento das famílias recuou nos últimos meses por conta da crise financeira e do crédito mais escasso.
Aí surgiu o segundo problema: a inadimplência. Os atrasos chegaram até mesmo às modalidades mais seguras, como o próprio consignado. Alguns bancos chegaram a registrar índices superiores a 12% em alguns convênios com órgãos públicos.
Historicamente, a modalidade tem uma das inadimplências mais baixas entre os empréstimos para pessoas física, já que as parcelas são descontadas diretamente do pagamento do trabalhador. Não há dados oficiais, mas segundo estimativa dos próprios bancos, os atrasos variam entre 1,5% e 3,5%, dependendo do público. Mas os percentuais subiram recentemente.
Paulo Henrique Pentagna Guimarães, presidente do Bonsucesso, conta que a inadimplência média do consignado no banco hoje está em 6%. "Garanto que é uma das menores do mercado". Segundo ele, o principal motivo para o não pagamento é a morte do devedor. Em menor grau aparecem os problemas no sistema eletrônico de pedido de crédito. A exoneração do funcionário público e as fraudes também contribuem para o problema.
No Banco BMG, um dos maiores no consignado, também houve um aumento nos atrasos. As provisões cresceram de 2,1% da carteira total de crédito, incluindo operações cedidas, em junho de 2008, para 3% em junho passado. A inadimplência aumentou no consignado concedido a funcionários do setor privado por causa de demissões, disse o diretor da instituição, Ricardo Gelbaum.
Já no funcionalismo público, alguns convênios, cujos sistemas não são tão eficientes, apresentaram inadimplência de até 12%. O problema é que qualquer desconto que ocorre na folha de pagamento, como a compra de medicamentos, por exemplo, reduz a chamada margem consignável, de 30%, que é o limite máximo que pode ser comprometido com o pagamento mensal do consignado. Quando a margem fica abaixo de 30%, o pagamento do empréstimos é suspenso e o funcionário passa a ficar inadimplente. Em muitos casos, o banco tem de fazer um novo pedido para que a situação se regularize.
Segundo Adalberto Savioli, presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), os sistemas hoje estão mais robustos e com menor grau de falhas, o que permitiu uma redução da inadimplência. "No início, tínhamos de carimbar os três últimos holerites do funcionário. Mas se ele tirasse segunda via, conseguia pegar novo empréstimos acima da margem. Hoje os sistemas são mais robustos e os controles de vinculação de margens são mais rígidos."
Fonte: Matéria lida no-Valor Econômico - 31/07/2009
Maria Christina Carvalho e Fernando Travaglini, de São Paulo