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Microcrédito vai atingir 6 milhões de 'sem-banco' -Medidas de barateamento e ampliação do crédito dão início à 'agenda positiva' do governo Lula

BRASÍLIA - O governo quer oferecer empréstimos bancários a seis milhões de empreendedores brasileiros que hoje não têm nem conta bancária. O Banco do Brasil (BB) abrirá uma operadora de consórcios de automóveis e eletrodomésticos para estimular o consumo e tentar reaquecer a economia. E os bancos, oficiais e privados, poderão oferecer uma conta bancária simplificada para pessoas de baixa renda. Estas são algumas das medidas que o governo anuncia nesta semana para sair do córner criado pelos juros altos e pela conseqüente queda da atividade econômica. Começa assim a sair do papel a chamada "agenda positiva" do governo Luiz Inácio Lula da Silva. No principal evento da semana, amanhã, o BB e a Caixa Econômica Federal anunciarão medidas para baratear o crédito, incentivar o consumo e simplificar a abertura de contas bancárias. A Caixa vai cortar para perto 2,5% ao mês as taxas de juros cobradas sobre empréstimos de pequeno valor, o microcrédito. Hoje, essas taxas estão na casa dos 5%. O governo quer ampliar a oferta de microcrédito no País, pois aposta alto neste programa como instrumento de democratização do acesso ao crédito bancário. A Caixa estima um potencial de seis milhões de pessoas que necessitam do microcrédito. Na tarde de ontem, havia dúvidas sobre quanto o governo destinaria a essa modalidade de empréstimos e qual seria a origem dos recursos. Só com essa decisão se saberá o valor máximo de cada empréstimo e a taxa de juros. As alternativas em análise ontem eram: recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) ou do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Na semana passada, pensou-se na hipótese de liberar recursos dos depósitos compulsórios sobre depósitos à vista que os bancos têm de fazer no Banco Central (BC), desde que fossem aplicados no microcrédito. Mas a medida foi descartada ontem, após muita discussão da equipe econômica. Decidiu-se que o compulsório, um instrumento de política monetária, não deve misturar canais com política de crédito. Consórcios - Outra novidade é o ingresso do BB no mercado de consórcios. Será criada uma administradora ligada à instituição, que oferecerá consórcios para automóveis e eletrodomésticos. Para a equipe econômica, o ingresso de um concorrente de peso incentivará a oferta de crédito mais barato nessa modalidade. Assim, o governo dará impulso ao setor que mais sofre os efeitos dos juros altos: o de bens de consumo duráveis. O aumento do consumo desse tipo de produto terá o efeito adicional de puxar para cima a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto. Os dois bancos também aumentarão sua presença junto ao público. A Caixa quer dobrar o número de correspondentes bancários (estabelecimentos comerciais que prestam serviços de bancos, como recebimentos de contas e depósitos). A instituição estima que haja 25 milhões de famílias com renda até 5 salários mínimos sem acesso ao sistema bancário. O BB quer dobrar o número de supermercados que operam como seus correspondentes. Cooperativas - As notícias começam a ser anunciadas hoje. Além de definir as metas de inflação para 2004 e 2005, o Conselho Monetário Nacional (CMN) deverá analisar um voto autorizando a criação de cooperativas de livre associação. Hoje, só é possível criar cooperativas que reúnam pessoas de uma mesma categoria trabalhista. Com a resolução do CMN, será possível criar cooperativas de crédito dentro de municípios, por exemplo. Preocupado com a quebradeira de cooperativas ocorrida nos anos 90, o governo adotou algumas regras de prudência. Por exemplo: as novas cooperativas terão de ser filiadas a uma cooperativa central. Com isso, o governo espera intensificar sua supervisão. O CMN também deve aprovar uma resolução criando uma modalidade de conta bancária mais simples e barata, nos moldes do Caixa Aqui. Dessa forma, os bancos privados poderão operar nessa faixa de clientes. Para abrir essas contas, será necessário apenas CPF e endereço. Elas serão movimentadas só por cartão magnético e o correntista terá direito a quatro saques e um extrato, sem tarifa. O Caixa Aqui tem 160 mil clientes e a meta é chegar a 10 milhões em 5 anos. Poderá constar ainda da pauta do CMN uma resolução ampliando o limite de endividamento dos municípios junto ao sistema bancário, hoje de R$ 200 milhões. Esse limite está 'estourado', e Lula tem cobrado a flexibilização desse teto para permitir aos municípios que tenham suas contas saneadas aumentar o investimento. Há recursos disponíveis da ordem de R$ 1,4 bilhão. Também está na pauta a liberação de recursos para financiamento da safra, num total de R$ 32,5 bilhões. (Colaboraram João Domingos e Sheila D'Amorim)

Fonte: Matéria lida no-O Estado de S. Paulo - 24/06/2003 LU AIKO OTTA e VÂNIA CRISTINO   

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